Affonsinho: suingue, simpatia e música de qualidade

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Affonsinho e sua inseparável guitarra (Foto: Divulgação)
Affonsinho e sua inseparável guitarra (Foto: Divulgação)
Os ouvidos agradecem, o sorriso no canto da boca surge assim, meio de repente. E, quando percebe, já está balançando o corpo suavemente, no embalo da melodia. É essa a reação de quem escuta as canções de Affonsinho, versão belo-horizontina da bossa-nova carioca, com boas pinceladas de pop e blues.

Affonso Heliodoro dos Santos Júnior, o Affonsinho, ingressou no mundo da música de uma forma, no mínimo, curiosa: “para retribuir um favor a ninguém mais ninguém menos que John Lennon, por quem eu era fascinado”, revela o cantor. Sabendo de tamanha paixão, “Affonso-pai” decidiu fazer uma brincadeira e entregou para o “Affonso-filho” um violão, alegando que o instrumento era um presente enviado pelo Ex-Beatle. “Eu fiquei com aquele dever, aquele compromisso. Eu tinha que tocar. Afinal de contas, era o John Lennon quem tinha me dado o violão”, conta Affonsinho, relembrando o inocente pensamento de um garoto de seis anos.

A paixão por Lennon surgiu após assistir, na companhia do pai, a várias sessões de Help, filme protagonizado pelos Beatles. “Ele foi meu primeiro super-herói, antes mesmo do Batman e esses outros personagens de luta. Fico feliz, porque o meu herói era da paz e do amor”, orgulha-se.

Mesmo com o violão em mãos, as primeiras aulas profissionais só aconteceram aos nove anos, ministradas por um primo. Cada vez mais apaixonado por música, o já adolescente Affonsinho adorava colecionar e trocar LP's com os colegas, sempre se aperfeiçoando no violão. “Eu ouvia os discos e comecei a tentar tocar algumas coisas no violão, o qual, nessa época, eu já sabia que não havia sido presente do John Lennon”,

brinca Affosinho.

Aos 21 anos, o belo-horizontino estudou na Berklee College of Music (Boston, Estados Unidos). De volta a BH, começou a tocar nos barzinhos da capital. Numa dessas noites, conheceu um empresário, Cacá Prates, que o apresentou a Arnaldo Brandão, fundador da banda de pop rock Hanói Hanói. Foi aí que Affonsinho levou sua música para o eixo Rio-São Paulo e para o restante do país.

Anos 80 – celeiro do rock
Como guitarrista do Hanói Hanói, Affonsinho vivenciou toda a efervescência do rock brasileiro da década de 80. “Foi quando eu pude ver como era trabalhar profissionalmente com música no Brasil. Entrei numa banda que já tinha disco gravado e tocava em rádios”, conta.

Aparecendo em programas de auditório de grande audiência, Chacrinha, Hebe Camargo e Faustão, a banda conheceu o sucesso e o Hanói chegou a passar oito meses na estrada, tocando hits como “Totalmente Demais” e “Rádio Blá”, regravados respectivamente por Caetano Veloso e Lobão.

“Foi muito legal ter chegado ao Rio de Janeiro nessa época. No princípio dos anos 80, quando apenas o Clube da Esquina era o que se conhecia da música mineira. Mas já havia outras coisas acontecendo aqui e as pessoas achavam que a gente não sabia tocar rock”, explica.

Embalado numa carreira de sucesso, Affonsinho estava no caminho que, praticamente, todo músico sonharia estar. Mas o nascimento do primeiro filho foi mais importante e ele decidiu largar tudo no auge da carreira. “Eu já estava cansado. Nenhum trabalho era mais importante que estar

perto do meu filho”, conta referindo-se ao primogênito Frederico Heliodoro, nascido em 1987.

Outros caminhos
Affonsinho precisava de um ritmo de vida mais tranquilo para encontrar seu caminho na música. Resgatando seus ídolos da infância e adolescência, ele mergulhou na composição. Além de Beatles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento, João Gilberto, Chico Buarque, os internacionais Gershwin, Cole Porter, Nat King Cole, Jimi Hendrix, Eric Clapton e BB King, o inspiram até hoje na hora de escrever suas letras.

Ele admite que compor não é uma tarefa fácil. “Já falaram bobagem demais nas músicas. É muita responsabilidade fazer uma letra. Uma canção deve despertar uma emoção bacana, para que a pessoa fique mais apaixonada pela vida. Eu tenho essa pretensão. Quero seguir, estudar e tentar chegar lá”, afirma.

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Discografia

(2013) Depois de Agora
(2013) Trópico de Peixes
(2011) Zague e Zeia 
(2010) Voz e Viô 
(2003) Esquina de Minas – Dois lados da mesma viagem (Affonsinho) 
(2002) Esquina de Minas I 
(2001) Zum Zum (lançado no Brasil e no Japão)
(1998) Sambando assim meu rock'n'roll 
(1994) Tudo certo? 

A dedicação de mais de três décadas tem dado resultado. Affonsinho consegue fazer canções delicadas sem ser piegas. Românticas, mas alegres. Suaves e ainda assim marcantes. O músico foi eleito o melhor instrumentista do Festival de Música de Minas Gerais – Fesbelô 2000 e conquistou o Troféu Pró-Música, na categoria Melhor Cantor, também em 2000.

Affonsinho ainda acredita ter muita estrada para percorrer. “Música para mim é emoção, é espiritualidade, é contato com Deus. Eu quero cativar as pessoas. Ouço Chico Buarque e me sinto humilhado como compositor. É difícil alguém chegar a uma obra como a dele”, declara. Mesmo com toda essa modéstia do cantor e compositor,  assim como Belo Horizonte, o “super-herói” John Lennon deve sentir muito orgulhoso do artista.

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Cantor, compositor, violonista, guitarrista. Não bastassem as atribuições ligadas à música, Affonsinho também se aventurou como ator.

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Affonsinho, o ator
Cantor, compositor, violonista, guitarrista. Não bastassem as atribuições ligadas à música, Affonsinho também se aventurou como ator.

Após ouvir – e gostar – de dois CDs do músico, a diretora Maria Adelaide Amaral o convidou para integrar o elenco da minissérie JK, da TV Globo. “Foi um susto, porque eu não sou ator. Eu achei que iria apenas tocar, mas acabei pegando algumas falas”, relembra Affonsinho.

Ele interpretava César Prates, um ex-amigo de Juscelino Kubitschek e ex-cantor da Rádio Inconfidência. “Fiquei aflito e estudava muito. O José Wilker (intérprete de JK na fase adulta) poderia errar, mas eu não”, brinca.

Da atuação, Affosinho faz um balanço positivo, sempre com seu típico bom humor. “Ou eu era muito ruim, ou fiz razoavelmente bem, porque não levei nenhuma bronca”, conta.  

Para ele, atuar na minissérie que contava a trajetória do ex-prefeito de BH e ex-presidente do Brasil teve um significado a mais, ligado a seus laços familiares. Seu pai, Affonso Heliodoro, era policial militar e trabalhou diretamente com JK – primeiro, como Chefe da Casa Militar em BH e, depois, como subchefe da Casa Civil, em Brasília. Além disso, o pai de Affonsinho foi presidente do Memorial JK, localizado em Brasília.