Clube da Esquina: das esquinas de Belo Horizonte para o mundo

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Clube da Esquina: movimento revolucionário, regionalista e bem elaborado deixou sua marca no cenário musical de Belo Horizonte

Imagine a seguinte cena: passar pelo boêmio bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, mais precisamente pelo cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, e se deparar com Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta tocando violão. Hoje em dia, isso parece impossível, mas nos anos 60 essa cena era bem comum.

O cenário da época era de repressão política, mas já aconteciam mudanças na música brasileira. Novos artistas surgiam e era um momento no qual todos queriam dar ênfase às suas vozes. Surge então o Clube da Esquina, um grupo de artistas que escreveram um dos importantes capítulos da história da Música Popular Brasileira em Minas Gerais.


Seus integrantes, fãs dos The Beatles, gostavam de assuntos culturais, políticos e colocavam em suas letras temas sociais e o cenário mineiro da época. No início, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Lô, Telo e Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga formavam o time. 

“Antes da música, a amizade”

Essa é uma das frases de Milton Nascimento, o famoso Bituca, para definir o Clube da Esquina. Quando mudou-se para Belo Horizonte,em 1964, para morar no Edifício Levy e cursar Economia, começou a tocar em bares e a compor com seu vizinho Márcio Borges. A amizade com os outros irmãos de Márcio, Marilton, Lô e Telo, foi natural. “Milton era considerado o décimo segundo filho da família. É o amigo, o irmão”, afirma o compositor Telo Borges.

Os Borges, então, se mudaram para uma casa na Rua Divinópolis, no Bairro Santa Tereza e, a partir disso, o local se tornou referência de encontro para os músicos. Dos encontros da esquina, surgiram várias composições de sucesso.

Em 1967, a Tropicália surge no Brasil e abre caminhos musicais. Na época, Milton Nascimento tem três composições classificadas para a final do II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e ganha como melhor intérprete. Recebe também o segundo lugar com a música “Travessia”.

De acordo com Telo, a participação nos festivais foram uma grande oportunidade para o sucesso e, a partir desse momento, Bituca e suas músicas passaram a ser reconhecidos em todo o mundo. "Para o Clube da Esquina, é impossível negar a importância de Milton”, admite o compositor.

O sucesso do Clube da Esquina

Na década de 70, em seu disco “Milton”, o cantor e os amigos do Clube começaram a fazer um som que tinha características próprias. Em 72, é gravado o álbum Clube da Esquina nº 1, que passa a dividir o movimento musical no país, apresentando composições que chamavam a atenção pela mistura de sons, poesia, gêneros e estilos, além de conseguir influenciar lugares e tendências com suas letras, tornando-se o precursor do movimento musical em BH. 

No disco, os artistas contaram com a participação da banda Som Imaginário e Naná Vasconcelos e utilizaram guitarras distorcidas e percussão, novidades para a época. Toninho trazia a bossa nova e o jazz, Lô e Beto Guedes eram responsáveis pela influência mais contemporânea do rock e do progressivo, Márcio e Fernando agregavam a bagagem literária e do cinema. 

Após esse trabalho, os compositores fizeram sua história mundialmente, devido à ousadia artística e criatividade. “O Clube da Esquina teve uma grande repercussão, artistas do mundo inteiro se renderam às nossas músicas”, orgulha-se Telo Borges.

As consequências do sucesso foram rápidas. Em 1997, receberam da Assembleia Legislativa a Ordem do Mérito Legislativo do Estado de Minas Gerais. Em 2003, “Tristesse”, de Milton Nascimento e Telo Borges, recebeu o Grammy Latino na categoria melhor canção brasileira em português.

Essa trajetória de sucesso fez o bairro Santa Tereza se tornar um marco na história do grupo. Na famosa esquina foram colocadas placas pela Prefeitura de Belo Horizonte para homenagear o movimento. No chão também há trechos das músicas dos cantores para lembrar que por ali aconteceu a mais pura música brasileira.

"Sonhar e concretizar”

A partir de um sonho de Márcio Borges, o histórico do Clube foi eternizado com o projeto do Museu Clube da Esquina, que começou em 3 de fevereiro de 2004. Em março do mesmo ano, foi criada a entidade, sem fins lucrativos, Associação dos Amigos do Clube da Esquina, que gerencia as ações do museu e realiza outras voltadas para a formação musical e estímulo à reflexão sobre a cultura no país.

O Museu surgiu em BH para reunir momentos da história dos seus protagonistas e para mostrar ao público o que aconteceu durante esses anos. Seu papel é revelar a memória do movimento por meio da publicação do acervo existente, que inclui depoimentos, fotografias, documentos, vídeos e áudios.

Mais informações: www.museuclubedaesquina.org.br