Caju e Totonho: na simplicidade mineira, o ingrediente das melhores piadas

“A gente ria das mesmas coisas, existia uma sintonia. Foi humor a primeira vista!”

Caju e Totonho
Caju e Totonho
A mãe reclama com o filho adolescente: “esse menino não para em casa. Qualquer hora dessas, o cachorro vai mordê-lo por achar que é gente estranha. A cama dele está lá, toda desarrumada. Se chegar visita, vai ver aquela bagunça, porque eu não vou arrumar. O danado bebe água na mão, mas não lava um copo sequer. É o dia ‘intirim’ no telefone conversando. Só quer saber de gastar, gastar... aqui em casa não tem pé de dinheiro não, viu?”.

Qualquer semelhança dessa fala com a vida real não é mera coincidência. Esse trecho do espetáculo da dupla de humoristas mineiros Caju e Totonho representa um pouco das várias mães brasileiras que eles interpretam em seus espetáculos de humor. Em outro momento da peça “Vão Falar de Coisa Boa” eles narram o que o embarque em um ônibus errado pode provocar: “gente, que coisa esquisita é essa que a gente sente quando está dentro do ônibus, contando que ele vai seguir uma rua e, de repente, ele faz uma curva? Que sensação de sequestro é essa? É só parar, descer e voltar um quarteirão pra pegar outro coletivo, mas a gente pira. "Ô motô", "ô motô", pra onde esse ônibus está indo?”. É assim, buscando as falas e situações simples do dia a dia que os dois se transformaram numa das maiores referências humorísticas de Minas Gerais.

Diferente de várias duplas de humor, Alfredo Vianna (Totonho) e Rodrigo Signoretti (Caju) só se conheceram após trilhar dez anos de carreira cada um. Em 1999, durante as apresentações de um programa de rádio, eles perceberam que poderiam fazer sucesso juntos. “A gente ria das mesmas coisas, existia uma sintonia. Foi humor a primeira vista!”, brinca Caju. Em 2002, a dupla resolveu investir em TV e produziu o piloto de um quadro para o programa Alterosa Esporte, exibido pela afiliada do SBT em Minas. A participação contava com comentários engraçados sobre a Copa do Mundo. O programa, que já tinha a melhor audiência da casa, passou a ter picos ainda mais altos com a aparição da dupla. Os dois, então, se tornaram figuras conhecidas e permaneceram na emissora, até outubro de 2010, com o programa “Caju e Totonho em OFF” – uma forma bem-humorada de mostrar os bastidores de outros programas do canal. A dupla chamou a atenção da TV afiliada da Rede Record e foi contratada para apresentar um programa nos mesmo moldes.

Além da TV, Caju e Totonho permanecem no rádio e no teatro. Em 2009, estrearam a peça “Caju e Totonho Sem Pensar Duas Vezes” e são frequentemente convidados por empresas para fazer abertura de eventos, é o que eles chamam de “Mestre Sem Cerimônia”.

Formados em Artes Cênicas, eles acreditam que não é tarefa fácil arrancar gargalhadas do mineiro e, por isso mesmo, se orgulham da adesão desse público. “Humor é universal, mas o público mineiro é muito exigente, não aceita qualquer coisa. Então, você ser aprovado aqui em Minas é você ser aprovado em todo o Brasil. Aqui é uma praça de teste mesmo”, valoriza Caju.

A dupla acredita ser uma feliz coincidência o encontro que a vida lhes proporcionou. Os nomes, por exemplo, já existiam antes da parceria entre os dois humoristas e ninguém precisou mudar porque teve uma sonoridade interessante. Caju herdou o apelido dos tempos da escola. Já Totonho se apropriou de um personagem criado por ele. O que aumenta ainda mais o universo de brincadeiras entre os dois é a rivalidade no futebol. O Cruzeiro Esporte Clube é o time do coração de Totonho, enquanto Caju é torcedor do Clube Atlético Mineiro. “Isso ajuda muito. Imagina se os dois torcessem para o Cruzeiro ou os dois para o Atlético, que coisa mais sem graça seria?”, argumenta Totonho.

Além da simplicidade, outro grande diferencial desses mineiros no meio humorístico é fazer piada para todas as idades. O conteúdo da peça, bem como as brincadeiras na TV e rádio, não causam constrangimento ou usam de artifícios preconceituosos. “Não precisamos de ferramentas apelativas para fazer graça. O nosso humor passa pela família. Na rua, os pais colocam os filhos em nossos colos para tirar foto. Isso é uma assinatura de aprovação”, orgulham-se.

Talvez seja essa forma de “fazer graça” que também atrai os diretores de hospitais que convidam Caju e Totonho para levar alegria àqueles que não podem ir ao teatro. “Isso é um trabalho muito gratificante. Fazer sorrir alguém que está num momento tão difícil é um desafio e, quando isso acontece, sentimos nossa alma lavada, a bateria carregada e a certeza de que o nosso papel dentro do humor está sendo cumprido”, acredita Totonho.

Belo Horizonte é uma graça
Se existe um lugar que oferece diversos ambientes e situações para se fazer humor, os dois acreditam que esse lugar é Belo Horizonte. Isso porque a capital reúne mineiros das mais diversas cidades. “O mineiro por si só já é engraçado. Tem essa coisa do matuto, do caipira, mas é inteligente, é esperto, é observador. E isso é muito importante, porque, observando, a gente sempre tira piada. E esse ambiente de bar, de prosear, contar histórias sempre sai coisa boa”, revela Totonho.

Mesmo sendo natural de Poços de Caldas, Totonho já abraçou BH como sua cidade natal: “eu não tenho vontade nenhuma de sair daqui. Meu filho nasceu aqui e é onde pretendo viver. Tem lugares que a gente vai e brinca, nossa, que cidade bonita! Tô vendo esse prédio, tô vendo essa praça. Tá aí! Vou ficar em Belo Horizonte mesmo”, brinca. E Caju completa “o pessoal fala que a gente devia ir para São Paulo, porque é lá que o dinheiro está correndo. Se aqui em Minas que o dinheiro está parado a gente não pega, imagina lá que ele está correndo?”.

Caju é um belo-horizontino apaixonado pela cidade. “Eu adoro Belo Horizonte. Eu não a troco por nada. E olha que já viajamos bastante. Quanto mais longe a gente vai, mais saudade eu tenho daqui. Acho o povo bonito, adoro a comida daqui, acho fácil de andar, é tudo perto e, ao mesmo tempo, tem tudo que uma metrópole deve ter. O povo é acolhedor demais. Eu já fui produtor de vários festivais internacionais de teatro e recebi companhias de toda parte do mundo. Eles ficavam impressionados com a receptividade do mineiro. E eu tinha o maior orgulho disso, porque essas companhias se apresentavam no Brasil todo, mas achavam BH especial” conta.

Os dois concordam que é na capital mineira que concentram as mulheres mais bonitas, a melhor comida, a melhor bebida – que tem a melhor cachaça e os melhores bares para sentar e bater aquela prosa. E aconselham, entre risos: “Se você, turista, é homem, pode ficar por aí mesmo, mas se for mulher pode vir pra cá, viu?”.