Floresta: retrato vivo da época de uma inocente BH

Viaduto da Floresta, um dos ícones do bairro
Viaduto da Floresta, um dos ícones do bairro
“A minha vida é essa/subir Bahia e descer Floresta”. Não é apenas o fato de ser citado no verso do compositor Rômulo Paes que faz esse cenário belo-horizontino ter um quê de poesia. Mas, também a presença de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Guimarães Rosa, antigos moradores do local, mistificou ainda mais essa parte da região leste da capital.

O bairro Floresta nasceu para abrigar operários que trabalharam na construção de Belo Horizonte. Ali eles ergueram suas casas simples, feitas de zinco, próximas à Avenida do Contorno. Com o término das obras da capital, os barracões foram demolidos, dando lugar a casarões, muitos deles ainda existentes, de imigrantes europeus. Grande parte desses sobrados eram sedes de chácaras, que abasteciam a recém-inaugurada capital com produtos hortifrutigranjeiros. A marca dessa época está viva até hoje: a área da atual praça Comendador Negrão de Lima era, no começo do século passado, justamente a chácara do Comendador Negrão de Lima.

A origem do nome do bairro é controversa. Há quem diga que se deve ao fato do local ter abrigado, ainda nos tempos do Arraial Curral del Rei, uma grande mata. Outra versão diz que o nome surgiu com a crescente fama do boêmio Hotel Floresta, erguido em 1897, na avenida do Contorno. Uma terceira corrente defende que o bairro abrigou um botequim muito frequentado, cujo dono era um espanhol chamado Floresta.

A história do bairro Floresta se confunde com a própria história de Belo Horizonte pelo fato de ter sido um dos primeiros bairros a surgir na capital. Ele nasceu marginalizado no grande centro e começou a se desenvolver a partir de 1905, com a chegada da linha do bonde. Esta intensificou o comércio entre duas de suas principais vias – as avenidas Assis Chateaubriand e Contorno.

Os anos se passaram e, para facilitar o acesso ao crescente bairro, entre as décadas de 20 e 30, foram inaugurados os viadutos Santa Tereza e Floresta. A rua Itajubá passou a ser referência para o restante da cidade como ponto de lazer: ali aconteciam os famosos bailes de Carnaval, como o “Bloco dos Bocas-Brancas” e as sessões no Cine Floresta. Também a rua era local certo para o footing: enquanto os rapazes ficavam parados na calçada, as moças cruzavam o trecho da via, compreendido entre a ruas Pouso Alegre e a Contorno, no inocente jogo de flerte do começo do século 20.

Outro ponto certo de encontro era o Cine Odeon, na avenida do Contorno, que não exite mais.

 

Viaduto da Floresta
Viaduto da Floresta
O Viaduto da Floresta - Construído sobre as linhas férreas da Central do Brasil e da Rede Mineira de Viação, foi inaugurado em outubro de 1937. Ligou o bairro Floresta, tradicional na capital mineira, ao centro comercial e criou uma solução para os acidentes que ocorriam nos cruzamentos de bondes com a estrada de ferro.

Em 2002 foram realizadas obras de recuperação das áreas deterioradas debaixo do viaduto, com aplicação de um sistema de proteção superficial e retirada dos trilhos de ferro, onde na década de 50 circulava o bonde da cidade. Além de melhorar a fluidez no trânsito local, a obra de restauração do viaduto permitiu o resgate da história da cidade e a preservação de um patrimônio cultural.


Pioneirismo

O ar ainda singelo, inocente e bucólico do Floresta contrasta com o seu vanguardismo. Foi o primeiro bairro de Belo Horizonte a ter um imóvel construído fora dos limites da avenida do Contorno: a Casa do Conde de Santa Marinha, próximo à Praça da Estação, um importante espaço cultural.

Além disso, recebeu a primeira bonbonnière de Belo Horizonte, a Fábrica de Balas Lalka, fundada em 1925 por Stanislau Genon Grochowisk, e que até hoje está localizada no bairro.

A instalação da linha do bonde em 1905, cujo ponto final se localizava no cruzamento entre as ruas Curvelo e Contorno, foi outro divisor de águas: transformou em coletivo e popular um meio de transporte até então usufruído apenas pela elite belo-horizontina.

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Marcos históricos do Floresta

- Colégio Santa Maria, fundado em 1903 pelas irmãs Dominicanas (antes era um internato).
- Colégio Batista Mineiro, criado no dia 1º de março de 1918
- Casa do Conde de Santa Marinha
- Viadutos Santa Tereza e Floresta
- Igreja Nossa Senhora das Dores, construída em 1930
- Cine Odeon
- Museu Ferroviário


Outros nomes do bairro Floresta

Favela, Morro da Estação, Alto da Estação eram outros nomes pelos quais o bairro era conhecido antes de se tornar o bairro Floresta.

Andar nas ruas do Floresta é respirar essa magia, é viajar pelo passado e cruzar com ele até hoje, seja contemplando um monumento, seja passando em frente a um casarão ou atravessando muitas das ruas estreitas, assim como eram há cem anos.

Caminhar e viver no Floresta é tentar descobrir o segredo de um bairro que, mesmo tão próximo ao Centro e cortado por uma das principais avenidas da cidade, ainda conserva a tranquilidade de uma cidade do interior, ainda que, paradoxalmente, conte com uma intensa atividade varejista. É procurar entender como uma região que nasceu puramente operária e suburbana se mostra sempre tão acolhedora. É usufruir de um verdadeiro “museu a céu aberto”, sempre prestes a contar, com seu jeitinho ainda inocente, a história do nascimento de nossa cidade.