Dona Lucinha: “História a gente não cria. A gente guarda e preserva”

Dona Lucinha - (Foto Rafael Barbosa)
Dona Lucinha - (Foto Rafael Barbosa)
Com um jeito de vó, a tranquilidade em seus olhos claros e fraternos é marcante. Uma senhora religiosa e paciente ao contar sua história rica em detalhes e sempre com orgulho ao falar da comida que faz. Cozinheira, catequista, professora, salgadeira, doceira, feirante, quitandeira, diretora escolar e vereadora, mas que, no fundo, queria ter sido médica. Mais um detalhe: 11 filhos e 23 netos. Essa é Maria Lucia Clementino Nunes, a Dona Lucinha, conhecida em todo país pela comida mineira feita com amor em seus restaurantes. “O primeiro ingrediente que se põe na panela é o amor. Minha família me ensinou que eu teria que aprender com a faculdade da vida. O que aprendi foi de uma forma prática, desde lavar uma louça, até fazer queijos”. Ela explica que as receitas não podiam sair de casa. “Não podíamos passar para ninguém os segredos, para preservar nossa cultura. Em casa, cada um ensinava as tradições aos seus filhos, tudo conforme as histórias indígena, africana, portuguesa”, conta.

Dona Lucinha nasceu em 21 de novembro de 1932, no Serro, em Minas Gerais. Criada em uma fazenda, filha de pais fazendeiros, veio morar em BH com os avós maternos, quando ainda era adolescente, para estudar e ter uma profissão. Quando fez 21 anos, tornou-se professora e casou-se, indo morar novamente em uma fazenda. Como professora, trabalhou por 30 anos e levou ao Serro as aulas de culinária para as escolas, contribuindo para enriquecer a alimentação dos alunos, além de levar a prática da agropecuária para quem morava ali. Todo esse trabalho lhe rendeu frutos: foi a vereadora mais votada na cidade.

Depois de aposentada, a vocação falou mais alto para a cozinha. “Cozinheira é aquela que preserva os costumes da sua terra com muito rigor”, define. Questionada sobre a gastronomia de Minas, ela conta que a culinária mineira é muito peculiar. “Não foi fácil inserir a gastronomia em Minas, porque nosso Estado fica entre as montanhas. Cada cidade tem sua comida específica. Era como se nós quiséssemos guardar a sete chaves a nossa cultura. E isso ficou por muitos anos como um baú de diamantes, sendo bem preservado”. Além disso, alguns “toques especiais” para uma boa comida são usados até hoje em seus restaurantes, como nunca usar enlatados em suas receitas. “São usados somente ingredientes frescos, saudáveis, de qualidade e de produção artesanal”, conta orgulhosa. 

Durante 30 anos, Dona Lucinha teve a oportunidade de levar para outros locais suas receitas especiais, através dos festivais gastronômicos. Durante todo esse tempo, ela e sua equipe levaram o sabor de sua comida para diversos festivais em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e até para fora do país. Em Turim, os italianos saborearam os melhores pratos mineiros, com um jantar todo especial. Em Nova Iorque e Miami, os americanos conheceram as receitas especiais da cozinheira mineira.

Acreditando que a comida mineira teria que ser apresentada para os consumidores em forma de buffet, para mostrar toda a diversidade que existe, Dona Lucinha recebeu um convite para abrir um restaurante na capital mineira, depois de todo esse sucesso dos festivais. “Eu achei que não ia dar conta. Mas queria um restaurante que lembrasse as fazendas, que preservasse os costumes, as tradições e os sabores mineiros.”  O sucesso foi tanto que, hoje, o Restaurante Dona Lucinha já possui três unidades, duas em BH e uma em São Paulo. O primeiro foi lançado em 1990, o segundo em 1991 e o terceiro em 1992. Além disso, em BH, existe o Armazém Dona Lucinha, que vende doces, broas e biscoitos, tudo com o toque especial da cozinheira.

Atualmente, seus filhos são gerentes das casas e ela fica responsável por dar toques na produção de licores, doces, verduras e temperos e na preparação de pratos especiais. Além disso, participa de programas de televisão para ensinar suas receitas e conta um pouco de sua história.

As histórias contadas em livro

Em 2001, junto com a filha Marcia Nunes, historiadora, Dona Lucinha lançou o livro "História da Arte da Cozinha Mineira", nas versões Português e Inglês. O livro apresenta, para os admiradores de sua cozinha, informações da época do ciclo do ouro e do diamante, além de detalhes das receitas mineiras. O livro ganhou destaque e já foi citado no Programa “Domingão do Faustão”, da Rede Globo, e recomendado pelo apresentador.

Em 2002, Dona Lucinha se tornou a representante do “slow food” e foi indicada para o prêmio pela Defesa da Biodiversidade.

veja mais

Saiba o que é Slow food

“Slow food é um movimento que tem o objetivo de mostrar a forma como nos alimentamos, com toda a influência do que nos rodeia. Para a gastronomia, é importante levar em consideração a relação entre prato e planeta. Além disso, melhorar a qualidade da nossa alimentação e arranjar tempo para saboreá-la, é uma forma simples de tornar o nosso cotidiano mais prazeroso. Fonte: www.slowfoodbrasil.com”

Com todo esse sucesso, Dona Lucinha já foi personagem de entrevistas em programas de televisão e documentários. É Minas Gerais mostrando o que tem de melhor na gastronomia e em sua história, afinal “história a gente não cria, a gente guarda e preserva”.

 

Conheça mais sobre o Restaurante Dona Lucinha pelo www.donalucinha.com.br

leia mais sobre

Levar comida para quem precisa

Em 2004, outro sonho de Dona Lucinha foi concretizado em Minas: a criação do Instituto Dona Lucinha. Com a missão de construir melhorias na segurança alimentar em Minas Gerais, o objetivo do Instituto é levar alimentação de qualidade para ... Clique aqui para ler mais sobre.

leia mais sobre

Levar comida para quem precisa

Em 2004, outro sonho de Dona Lucinha foi concretizado em Minas: a criação do Instituto Dona Lucinha. Com a missão de construir melhorias na segurança alimentar em Minas Gerais, o objetivo do Instituto é levar alimentação de qualidade para as pessoas que vivem em vilas e aglomerados, além de ensinar condições básicas de higiene para os moradores.

O programa também prevê a criação de alternativas que garantam a qualidade da alimentação em regiões de risco social na capital, com atitudes que possibilitam a melhora na qualidade de vida das pessoas. Para isso, o Instituto produz sopas com o que não é consumido nos buffets dos dois restaurantes de Dona Lucinha. A distribuição é feita para os moradores do Aglomerado Morro do Papagaio e Santa Lúcia, hoje Vila São Bento, com o apoio da Polícia Militar, que empresta os carros e militares para buscar e entregar a sopa.

Em 2006, foi feita uma cozinha industrial dentro do 22º Batalhão da PMMG, no Bairro Santa Lúcia, onde, atualmente, são produzidas, em média, 1.500 porções de sopa para serem doadas no Morro do Papagaio, Santa Lúcia, favela Pedreira Prado Lopes e Vila São José, com a ajuda da Polícia Militar. A cozinha leva o nome de “Maria de Nazaré” e a sopa, “Sopa da Tarde”. A distribuição é feita de segunda à sexta, sempre às 16h, em pontos fixos, definidos junto com a comunidade.